O seminarista jesuíta Bruno Franguelli fala um pouco da atuação dos jesuítas no Brasil e a busca por religiões
Por Tayná Letícia
Hoje em dia quase não se ouve falar de Jesuítas, mas estes ainda são presentes e atuam bastante em diferentes esferas da sociedade. Esse grupo como afirma o filósofo e seminarista jesuíta Bruno Franguelli, teve sua ima gem apagada lá pelo meio do século XVIII sendo expulsos do Brasil por motivos políticos da época. Nessa entrevista, Bruno além de nós falar um pouco da Companhia de Jesus, grupo ao qual pertence, aborda um pouco da religião como um todo e como esta vem sendo levada pela sociedade.
1) Os jesuítas foram muito importantes para a história da humanidade, atuando principalmente catequisando os que necessitavam. Hoje qual é a principal atuação dos jesuítas no Brasil e no mundo?
Os jesuítas são os membros da ordem da Companhia de Jesus. É uma ordem universal que existe em quase todos os países do mundo. Uma ordem que num certo período da história foi a maior ordem da igreja Católica. Entenda ordem como um grupo de padres que tem um fundador. E os membros desse grupo de padres se reuniram e formaram essa ordem da Companhia de Jesus, assim como existem outras, os franciscanos, beneditinos. Mas aqui nós estamos falando de jesuítas. Jesuítas como eu disse é uma ordem universal e nós temos desde inicio da Companhia uma tradição que consiste no melhor formar para melhor servir. Nós estamos, por exemplo, é inseridos no mundo da cultura, ciência, do diálogo inter-religioso que é tão importante, né. Na esfera social, fazemos um trabalho com refugiados no mundo todo; no Brasil também nós temos algumas universidades, atuamos em centros de juventude, em centros pastorais, paróquias. Nós temos um carisma, melhor dizendo, cada ordem tem um carisma, os carmelitanos, por exemplo, trabalham mais com hospitais, os franciscanos tem um carisma maior em relação à pobreza. Nós jesuítas fomos fundados por Santo Inácio de Loyola, em 1540 e desde início nós estamos mais para a missão, nosso carisma é aquilo que mais necessita de nós, nosso lema tudo para a glória de Deus então nós estamos inseridos no mundo de hoje, com as questões de hoje. Portanto, qual a nossa missão? São as questões de hoje. O diálogo com Jesus Cristo principalmente, com outras culturas, o diálogo entre fé e razão. Como você pode ver o diálogo está em tudo. O jesuíta tem uma formação longa dentro da Igreja, em média quinze anos, enquanto um padre diocesano estuda em torno de nove ou dez anos, podendo ser até menos.
2) Por que hoje em dia não se fala tanto desse grupo?
É verdade que você vai olhar para os livros de história e sempre você encontra os jesuítas lá, principalmente naquele momento do século XVI com a contra reforma, os jesuítas abraçaram o movimento, que de certa forma também era uma reforma na Igreja. Mas tipo, de fato você percebe na história do Brasil com o Anchieta vindo, fundando São Paulo, ajudando na fundação do Rio de Janeiro e toda a importância que eles tiveram na própria educação brasileira. Só que nós temos aí um momento histórico importante citar aqui que foi a expulsão dos jesuítas do Brasil em mais ou menos na metade do século XVIII. Os jesuítas foram expulsos do Brasil e depois preesos, ou seja, a Ordem Jesuíta no Brasil formalmente acabou na Igreja, por uma série de questões politicas da época. Nós voltamos depois, mas mesmo voltando com toda força, toda garra, isso pôde influenciar um pouco. Ora, os próprios livros de história depois dessa data falam muito pouco ou quase nada sobre os jesuítas. Resumindo, os jesuítas só se meteram em confusão (risos).No Rio Grande do Sul os jesuítas possuíam a missão dos Sete povos, a missão dos jesuítas , famosas, hoje só ruínas, mas na época era um agrupamento de indígenas que os jesuítas organizavam para defender os índios e com a expulsão dos jesuítas tudo isso acabou, os índios foram escravizados, por isso dizemos que existiam muitos interesses políticos por aí. Até a gente fala, se nós, os jesuítas não tivéssemos sido expulsos a educação do Brasil estaria a mesma? É uma pergunta.
3) O número de jesuítas vem crescendo ou diminuindo? Por que isso acontece?
Então, de fato, nós temos hoje uma sociedade onde a religião não tem mais a primazia, então raramente você nasce numa família que te ensina a fé, que te chama a buscar a fé, preserva a fé, isso então tem uma influência, nessa questão. Não que Deus não chame, Deus continua chamando, mas se a gente não tem uma sensibilidade para ouvir a voz de Deus nós não temos condições de acolher, tá. O número de jesuítas vem diminuindo, mas não só dos jesuítas e sim de todas as vocações sacerdotais. É algo assintomático, que está aí, mas não é mundial, nós temos na América Latina, Europa e também nos EUA uma diminuição, mas na Ásia por exemplo, na índia nós temos um aumento imenso de vocações, por uma razão que não sabemos exatamente qual. Antes era a Europa que mandava missionários para cá, hoje ela vem pedindo missionários, então há uma mudança aí de eixo.
4) Você acha que a mídia influencia nesse fato? Se sim, de que modo?
Nós temos hoje mídias, muitas mídias, se antes nós tínhamos o rádio, depois nós ganhamos a televisão, hoje a internet e enfim, temos uma conectividade muito grande com o todo, com o mundo, com a realidade, impressionante. É, tem uma influência, a mídia tem uma influência sobre nós, no nosso modo de agir, o que iremos vestir, em nossa cultura, nessa globalização e homogeneização da cultura que está acontecendo hoje. Temos também essas mídias católicas, que estão acontecendo hoje e de fato estão resgatando a fé, de uma certa maneira, nas pessoas e assim e tal. Mostrando um valor muito desvalorizado hoje. Mas é claro que a mídia hoje vem influenciando tanto positivamente como negativamente.
5) Em sua opinião, as pessoas hoje têm mais dúvidas em relação à religião que pretendem seguir? Ou verdadeiramente escolhem pegar um pouquinho de cada religião criando desse modo um verdadeiro pluralismo religioso?
Então, esse é um fato muito interessante, como eu dizia para você nós não nascemos hoje, dificilmente numa família tradicional, existem sim, eu conheço muitas, mas é mais raro. Digo pela minha experiência, minha família é de tradição católica, mas não praticante. Hoje nós temos católicos praticantes, católicos não praticantes. Mas é católico ou não, não tem essa questão. Mas tipo, então, as pessoas buscam, o fato de você ser pessoa, já faz que você busque um sentido, que queira um sentido para sua existência e a religião oferece essa resposta, várias religiões oferecem essa resposta. Mas a resposta que eu aceito para a minha vida é o cristianismo, é Jesus, por isso eu sou cristão, e cristão católico, compreende. Mas eu vejo claro que as pessoas não compreendem, hoje nós temos uma busca religiosa muito grande, nós vemos as igrejas pentecostais lotadas, mas se perguntar para a pessoa no que ela crer de fato, acho muito difícil ela dizer para você qual é a profissão de fé dela. Que hoje há uma usurpação da religião, esta é buscada não com um sentido profundo, mas muitas vezes como uma mera mercadoria de troca, de querer milagres, de querer mudar de vida e até muitas vezes uma religião que se diz cristã se opõe a própria proposta do cristianismo que propõe por exemplo a pobreza, religiões que se você for irá aumentar sua riqueza, conseguir mais carros, casas. Então, que cristianismo é esse? E as pessoas estão, cada vez mais, e em todas as classes sociais, não só as mais cultas e sim todas as classes sociais, elas estão em busca do sentido da vida e muitas vezes se equivocam, e perdem a fé por isso. Vejo aí de fato essa “confusão” que está acontecendo hoje. Depois você pergunta sobre o pluralismo religioso, o que eu chamaria de sincretismo religioso. De fato, as pessoas pegam aquilo que lhe convêm, o cristianismo é uma proposta que não deve ser pensada desse modo, simplesmente vai atrás por que lhe convém, Jesus oferece a cruz. E a cruz não é algo agradável, ela tem suas exigências, tem seus desafios. Algumas pessoas até querem o cristianismo, mas rejeitam a crus e de fato pegam elementos do cristianismo, elementos dentro, principalmente hoje, do esoterismo, de outras religiões, a chamada de “nova era”, pego um pouquinho de cada e faço um sincretismo, uma salada e assim eu dou um sentido para minha vida. Isso é questionável, respeitar a crença de cada um, porém é confuso.
6) A religião católica tem feito algo para atrair os jovens?
Lembro-me quando na catequese, minha catequista falava “a Igreja só será jovem quando o jovem for Igreja”. É claro que a Igreja tem uma tradição longínqua, tradição que deve ser respeitada. Mas de um tempo para cá ela de fato tem se aberto a questão da juventude, não só para dar respostas, mas também para ouvir as perguntas. Hoje um avanço incrível, que deve ser considerado. Hoje nós temos movimentos incríveis da juventude, de jovens na Igreja. E o principal, que vai acontecer no Brasil, fica comprovado que é a Jornada Mundial da Juventude, o papa reunido com a juventude do mundo todo, que é um evento muito importante dessa busca que a Igreja vem fazendo da juventude. A Igreja vem se encontrando e tornando jovem a partir de tudo isso. É importante perceber e mostrar para a juventude que a Igreja não cheira mofo, os jovens acham que este negócio de Igreja é carola, e esta visão vem sendo mudada.
7) A seu ver, qual deve ser a postura do católico perante a sociedade?
É uma pergunta bastante complexa. Primeiro, quando a gente fala de postura, falamos no modo de agir diante de toda a sociedade, nós temos aí uma sociedade fragmentada. Antes, se, por exemplo, nós nos encontrávamos na praça central na cidade, hoje nossa praça é a internet com todos nossos meios, isso de certa maneira, vem nos fragmentando de uma maneira que nós precisamos reagir. Qual é a postura? Costumo dizer que, não só eu mais o papa que a Igreja não é um conjunto de proibições, onde você não pode fazer, não pode fazer; isso a mídia muitas vezes coloca para gente. É uma afirmação positiva da fé, uma afirmação pela vida, não é um conjunto de normas, é um código de amor. Desse modo é uma afirmação, um sim que eu dou que o cristão dá para vida, um modo de vida. Uma coisa que acho importante dizer que o código de ética da Igreja é Jesus, é Jesus uma maneira de agir, olhando para ela, para o que ele fazia, as opções que ele tinha, o modo de agir diante de problemas da sociedade é o modo de agir do cristão. Sempre é necessário perguntar o que Jesus faria em meu lugar. Resumindo, uma postura critica diante da sociedade, não simplesmente uma postura que derrete, dissolve nessa sociedade e a qual temos que engolir. É uma postura crítica, de quem quer compreender a sociedade. Não é uma postura que vai de contra, que chega simplesmente com respostas prontas. Eu digo que evangelizar que anunciar o evangelho não consiste em dar grandes respostas, mas sim fazer grandes perguntas para sociedade. Não condenar, não proibir, não simplesmente pegar a Bíblia e falar assim está certo, errado, porque está escrito em tal passagem e tal. Hoje nós temos aí tantos temas, importantes para serem tratados, principalmente na questão da diversidade sexual, problemas em relação ao aborto, problemas relativos à moral, nosso papel simplesmente é fazer grandes perguntas.
8) Podemos dizer que dentro da religião existe algo que é mais importante (a disseminação da palavra, as ações de cada fiel)?
Sim, o mais importante é a relação com Deus e com a comunidade. Cristianismo é a comunidade, ninguém é cristão sozinho. A relação com Deus, com a comunidade Igreja e hoje diálogo com as pessoas da sociedade, tanto os que estão espalhados em outras denominações cristãs como aqueles que não creem no Cristo. O cristão hoje é um homem de diálogo, de profundo diálogo.
